
Maria, Mãe da Igreja
12/06/2026Exegese bíblica e desenvolvimento dogmático
A expressão “Maria, Mãe de Deus” está entre as afirmações mais profundas e, ao mesmo tempo, mais incompreendidas da fé cristã. À primeira vista, alguém poderia pensar que a Igreja pretende colocar Maria acima de sua condição de criatura ou afirmar que ela deu origem à divindade. Não é esse o sentido do dogma. A Igreja chama Maria de Mãe de Deus porque aquele que ela concebeu, gerou e deu à luz é uma única pessoa: o Filho eterno do Pai, verdadeiro Deus e verdadeiro homem.
O dogma mariano é, antes de tudo, uma afirmação cristológica. Ele não procura responder primeiramente à pergunta “quem é Maria?”, mas à pergunta fundamental: “Quem é Jesus Cristo?”. Se Jesus fosse apenas um homem especialmente unido a Deus, Maria poderia ser chamada apenas mãe desse homem. Contudo, se Jesus é o próprio Filho eterno que assumiu verdadeiramente nossa humanidade, então aquela que o gerou segundo a carne é verdadeiramente Mãe de Deus.
Maria não é mãe da natureza divina, nem origem da existência eterna do Filho. Ela é mãe da pessoa divina do Filho segundo sua humanidade. Essa distinção entre pessoa e natureza constitui a chave para compreender corretamente o ensinamento da Igreja.
A promessa e a espera de Israel
A maternidade de Maria não surge isoladamente da história bíblica. Ela está inserida no longo caminho da promessa feita a Israel. Deus chama Abraão, forma um povo, estabelece a aliança e conduz a história em direção ao cumprimento de seu projeto. A revelação acontece dentro da história concreta de Israel, por meio das promessas, dos profetas, da monarquia davídica, do exílio e da esperança de restauração.
A expectativa messiânica é expressa especialmente na promessa feita à casa de Davi. O Messias seria descendente de Davi, receberia seu trono e estabeleceria um reino duradouro (2Sm 7,12-16; Is 9,5-6; 11,1-9). A tradição profética também anuncia o sinal do Emanuel: “Eis que a jovem conceberá e dará à luz um filho, e lhe porá o nome de Emanuel” (Is 7,14).
No horizonte histórico imediato de Isaías, o sinal está ligado à crise política do rei Acaz e à continuidade da dinastia davídica. Mateus, porém, relê essa promessa à luz do nascimento de Jesus e reconhece nele sua realização plena: “Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho, e o chamarão Emanuel, que significa: Deus conosco” (Mt 1,23).
A exegese cristã não deve eliminar o sentido histórico original de Isaías, mas pode reconhecer que, dentro da unidade da Escritura, a promessa alcança uma plenitude que ultrapassa o horizonte inicial. O Emanuel já não é apenas sinal da proteção de Deus; em Jesus, é o próprio Deus que entra pessoalmente na história humana.
“Nascido de mulher”: o testemunho de Paulo
O testemunho mais antigo do Novo Testamento sobre a mãe de Jesus encontra-se provavelmente em Paulo:
“Quando chegou a plenitude do tempo, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a Lei, para resgatar os que estavam sob a Lei, a fim de que recebêssemos a adoção filial” (Gl 4,4-5).
Paulo não menciona o nome de Maria, mas sua formulação é teologicamente decisiva. Ele não afirma que Deus formou um homem e depois o adotou como Filho. O sujeito da frase já é o Filho: Deus enviou seu Filho, e esse Filho nasceu de uma mulher.
Aquele que nasce de Maria preexiste como Filho enviado pelo Pai. Ao mesmo tempo, ele nasce realmente de uma mulher e entra na condição histórica de Israel, “sob a Lei”. O texto mantém juntas a origem divina e a verdadeira humanidade de Jesus.
A maternidade de Maria está, portanto, ligada ao movimento da encarnação: o Filho eterno não apenas aparece em forma humana, mas nasce de uma mulher, assume nossa história e participa verdadeiramente de nossa condição. O Denzinger resume essa fé afirmando que o Verbo tomou de Maria um corpo humano verdadeiro, unido pessoalmente a ele, e que ela deu à luz, segundo a carne, o próprio Verbo encarnado (DH 251-252).
Mateus: “da qual nasceu Jesus”
Mateus inicia seu Evangelho com a genealogia de Jesus. Durante quase toda a genealogia repete-se a estrutura: um homem “gerou” outro homem. Ao chegar a José, porém, a fórmula é modificada:
“Jacó gerou José, o esposo de Maria, da qual nasceu Jesus, chamado Cristo” (Mt 1,16).
A expressão “da qual” refere-se exclusivamente a Maria. O evangelista interrompe a cadeia masculina da genealogia e evita dizer que José gerou Jesus. José terá uma missão real: acolherá Maria, dará o nome à criança e inserirá legalmente Jesus na descendência davídica. Contudo, não é apresentado como pai biológico.
O relato prossegue afirmando que Maria ficou grávida “pela ação do Espírito Santo” antes de viver com José (Mt 1,18). O anjo explica:
“O que nela foi gerado vem do Espírito Santo. Ela dará à luz um filho, e tu lhe porás o nome de Jesus, pois ele salvará seu povo de seus pecados” (Mt 1,20-21).
A construção do texto concentra a atenção em três elementos: a iniciativa de Deus, a verdadeira maternidade de Maria e a identidade salvífica do filho. Jesus nasce de Maria, mas sua origem última está na ação do Espírito Santo. Ele recebe um nome humano, pertence à descendência de Davi e, ao mesmo tempo, realiza uma missão que, no Antigo Testamento, pertence ao próprio Deus: salvar seu povo dos pecados.
O nome “Emanuel” leva essa identidade ainda mais longe. A criança nascida de Maria é o sinal definitivo de que Deus está com seu povo. Em Mateus, essa presença atravessa todo o Evangelho: Jesus é “Deus conosco” em seu nascimento e promete permanecer com os discípulos até o fim dos tempos (Mt 1,23; 28,20).
A concepção virginal não significa que a humanidade de Cristo seja menos real. Pelo contrário, Mateus insiste que ele nasce verdadeiramente de Maria. A ação do Espírito explica a singularidade de sua origem, mas não transforma seu corpo numa aparência. O Filho recebe de Maria verdadeira humanidade (NCBSJ, comentário a Mt 1,18-25, art. 42, n. 17-20).
Lucas: o Filho do Altíssimo nasce de Maria
O relato da anunciação oferece a formulação bíblica mais desenvolvida sobre a identidade daquele que Maria conceberá. Gabriel lhe diz:
“Conceberás e darás à luz um filho, e lhe porás o nome de Jesus. Ele será grande, será chamado Filho do Altíssimo, e o Senhor Deus lhe dará o trono de Davi, seu pai” (Lc 1,31-32).
Maria não é apresentada como mãe de uma ideia, de uma força espiritual ou de um corpo sem sujeito pessoal. Ela conceberá, dará à luz e dará nome a um filho. Esse filho, porém, será chamado “Filho do Altíssimo” e receberá um reino sem fim.
O anúncio articula a esperança messiânica de Israel com uma afirmação cristológica mais profunda. Jesus pertence à casa de Davi segundo sua humanidade, mas sua relação filial com Deus ultrapassa a condição de um rei adotado simbolicamente como filho. A explicação do anjo torna isso ainda mais evidente:
“O Espírito Santo virá sobre ti, e o poder do Altíssimo te cobrirá com sua sombra. Por isso, o Santo que nascer será chamado Filho de Deus” (Lc 1,35).
A expressão “te cobrirá com sua sombra” recorda a nuvem da presença divina que cobria a tenda da reunião e enchia o santuário (Ex 40,34-35). O verbo grego utilizado por Lucas, episkiazō, é empregado para indicar uma presença divina que envolve e consagra. Maria torna-se o lugar em que Deus vem habitar de modo absolutamente novo.
Essa relação permite contemplá-la, em sentido tipológico, como nova arca da aliança. A antiga arca carregava os sinais da presença e da aliança; Maria carrega em seu corpo o próprio Filho. Essa leitura não substitui o sentido histórico do texto, mas nasce de suas conexões com a linguagem veterotestamentária da presença divina.
O filho é chamado “Santo” e “Filho de Deus”. Não se trata apenas de uma criança que, mais tarde, receberá uma missão divina. Desde sua concepção, sua existência humana pertence pessoalmente ao Filho. A humanidade concebida em Maria não possui um sujeito humano separado do Verbo.
A obra catequética enviada nesta sessão expressa essa verdade de modo preciso: a humanidade de Cristo não tem outro sujeito senão a pessoa divina do Filho, que a assumiu desde a concepção; Maria é Mãe de Deus porque dela o Verbo recebeu o corpo humano unido à sua pessoa (Humberto Robson de Carvalho, Creio: a profissão de fé explicada aos catequistas, art. 3, p. 24-25).
“Cheia de graça” e a liberdade de Maria
O anjo dirige-se a Maria com a palavra grega kecharitōménē:
“Alegra-te, cheia de graça, o Senhor está contigo” (Lc 1,28).
Trata-se de um particípio perfeito passivo do verbo charitóō, relacionado à graça e ao favor gratuito. A forma verbal sugere que Maria foi alcançada pela ação de Deus e permanece sob seus efeitos. A iniciativa é divina: antes que Maria responda, Deus já a visitou, chamou e agraciou.
Essa saudação não é, isoladamente, uma formulação completa de todos os dogmas marianos. Dentro do relato, porém, manifesta que a maternidade de Maria nasce inteiramente da graça. Ela não conquista a eleição por força própria; recebe uma missão que a ultrapassa.
Sua resposta mostra que a graça não elimina a liberdade:
“Eis aqui a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1,38).
Maria não produz a encarnação por sua fé. A encarnação é obra do Espírito Santo. Contudo, sua fé é a disposição pela qual ela acolhe livremente a ação de Deus. Não é um instrumento inerte, mas uma pessoa que escuta, pergunta, discerne e consente.
Santo Agostinho expressou essa relação afirmando que Maria concebeu Cristo primeiro pela fé no coração e depois corporalmente no ventre: prius concepit corde quam ventre. A fé não substitui a ação do Espírito; é a abertura humana pela qual o Espírito opera nela (Santo Agostinho, A Trindade, IV,18,23).
Por isso, sua maternidade possui uma dimensão corporal e espiritual. Maria é verdadeiramente mãe porque oferece ao Filho sua carne, mas sua maternidade é inseparável de sua condição de discípula: ela escuta e acolhe a Palavra.
“A mãe do meu Senhor”
Na visitação, Isabel fica cheia do Espírito Santo e proclama:
“Como posso merecer que a mãe do meu Senhor venha me visitar?” (Lc 1,43).
Essa é a formulação bíblica que mais se aproxima do título “Mãe de Deus”. Isabel não diz simplesmente “mãe de Jesus” ou “mãe do Messias”, mas “mãe do meu Senhor”.
O termo grego kýrios, “Senhor”, pode ser utilizado para uma autoridade humana, para o Messias e para o próprio Deus. Na tradução grega do Antigo Testamento, Kýrios é a palavra normalmente empregada para traduzir o nome divino. Dentro da obra de Lucas, o termo é usado frequentemente para Deus e, depois, para o Cristo ressuscitado.
Não se deve afirmar que Isabel já estivesse formulando, com o vocabulário técnico dos séculos IV e V, a doutrina da união hipostática. O sentido primeiro da expressão está inserido na esperança messiânica e na narrativa lucana. Entretanto, lida à luz de todo o Evangelho e da fé pascal, sua exclamação possui um alcance cristológico extraordinário: aquela que visita Isabel é a mãe daquele que é o Senhor.
A confissão não nasce apenas de uma dedução humana. Lucas afirma que Isabel estava cheia do Espírito Santo. Sua palavra reconhece a dignidade singular de Maria precisamente porque reconhece a identidade singular de seu Filho (NCBSJ, comentário a Lc 1,39-45, art. 43, n. 21-23).
A obra Nos passos de Maria destaca também o movimento concreto da maternidade: Maria não permanece fechada no privilégio recebido, mas leva a presença do Senhor à casa de Isabel. A maternidade torna-se visita, serviço e proximidade (Luiz Alexandre Solano Rossi, Nos passos de Maria, 15º dia, p. 32-33).
“O Verbo se fez carne”
O prólogo de João não menciona Maria, mas oferece a afirmação que fundamenta teologicamente o dogma:
“O Verbo se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1,14).
O Verbo que estava no princípio junto de Deus e que era Deus não deixou de ser aquilo que eternamente é. Ele “se fez carne”, isto é, assumiu verdadeiramente a condição humana.
O sujeito da encarnação é o Verbo. Não surgiu primeiro um homem chamado Jesus ao qual o Verbo se teria unido posteriormente. O próprio Verbo assume a humanidade. Por isso, tudo o que Jesus realiza ou sofre segundo sua natureza humana pode ser atribuído à pessoa do Filho: o Filho nasceu, sofreu, morreu e ressuscitou segundo a carne.
Essa forma de falar é denominada na teologia comunicação de propriedades ou communicatio idiomatum. Não significa que a natureza divina possa nascer, sofrer ou morrer em si mesma. Significa que o sujeito das ações é uma única pessoa. Podemos afirmar que “Deus nasceu segundo a carne” porque aquele que nasceu é Deus Filho, embora seu nascimento pertença à sua natureza humana.
O Denzinger relaciona diretamente essa comunicação de propriedades ao título mariano: pode-se dizer que o Verbo nasceu segundo a carne e, por isso, Maria é chamada Mãe ou Genitora de Deus (DH 251; 401).
A maternidade verdadeira contra o docetismo
Desde os primeiros séculos, a maternidade de Maria serviu para defender a realidade da encarnação. Algumas correntes gnósticas e docetas afirmavam que o corpo de Cristo era apenas aparente, que teria vindo do céu ou que teria simplesmente atravessado Maria sem receber dela uma verdadeira humanidade.
Contra essas ideias, os Padres insistiram: Jesus nasceu verdadeiramente de Maria. Inácio de Antioquia afirma que o Filho de Deus foi realmente gerado por Maria. Irineu ensina que Cristo recebeu dela a mesma humanidade que veio salvar. Maria não é um simples canal pelo qual passa um corpo celeste; ela é sua verdadeira mãe.
Irineu relaciona essa maternidade à recapitulação. O Filho assume, por meio de Maria, a humanidade descendente de Adão para refazê-la em si mesmo. Aquilo que não tivesse sido verdadeiramente assumido não seria verdadeiramente restaurado. O corpo de Cristo, sua capacidade de sofrer, sua morte e sua ressurreição testemunham que sua humanidade é real (Santo Irineu, Contra as heresias, III,21,10; III,22,1-4).
Santo Atanásio combate igualmente duas separações. De um lado, rejeita a ideia de um corpo celeste que não viesse de Maria; de outro, rejeita a ideia de que o Verbo fosse uma pessoa e o homem Jesus outra. Para Atanásio, o Verbo tornou-se verdadeiramente homem, recebeu da Virgem um corpo semelhante ao nosso e permaneceu o mesmo sujeito pessoal em toda a vida de Cristo (Santo Atanásio, Carta a Epíteto, 7-12).
A maternidade de Maria protege, portanto, duas verdades inseparáveis: Jesus é verdadeiramente humano e aquele que se fez humano é verdadeiramente o Filho de Deus.
De Niceia a Éfeso
O caminho para a definição do dogma passa pelas grandes controvérsias cristológicas. O Concílio de Niceia, em 325, confessou que o Filho é “Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não criado, consubstancial ao Pai” (DH 125). Aquele que se encarna não é uma criatura superior, mas o Filho eterno da mesma natureza divina do Pai.
O Concílio de Constantinopla, em 381, professou que o Filho “se encarnou pelo Espírito Santo, no seio da Virgem Maria, e se fez homem” (DH 150). A profissão une o sujeito divino, a ação do Espírito, a maternidade de Maria e a verdadeira humanização do Filho.
No século V, a controvérsia associada a Nestório tornou necessário esclarecer a unidade pessoal de Cristo. Nestório temia que chamar Maria de Theotókos confundisse a humanidade e a divindade. Preferia o título Christotókos, “Mãe de Cristo”. O problema de suas formulações era que poderiam conduzir à compreensão de Jesus como dois sujeitos ligados entre si: o Filho eterno e o homem nascido de Maria.
São Cirilo de Alexandria insistiu que não existem dois filhos. Existe um único Filho e Senhor, o Verbo, que assumiu uma humanidade completa. Não se trata de uma simples habitação de Deus num homem semelhante à presença divina nos profetas. Desde a concepção, a natureza humana pertence pessoalmente ao Verbo.
O Concílio de Éfeso, em 431, acolheu essa compreensão. A Igreja confessou que o Verbo uniu a si, segundo a pessoa, um corpo animado por alma racional e nasceu segundo a carne. Maria é chamada Theotókos não porque a divindade do Verbo tenha recebido dela sua origem, mas porque dela nasceu o corpo humano pessoalmente unido ao Verbo (DH 250-252).
O título Theotókos pode ser traduzido como “Mãe de Deus”, “Genitora de Deus” ou “Deípara”. A definição de Éfeso é cristológica: protege a identidade única daquele que Maria gerou. A obra sobre os caminhos da tradição patrística ressalta precisamente que o dogma não divide o Verbo encarnado: Maria é mãe do Filho de Deus feito homem porque as naturezas divina e humana estão unidas numa única pessoa (Bogaz, Couto e Hansen, Patrística: caminhos da tradição cristã, cap. VI, p. 109-113).
Calcedônia: Mãe de Deus “segundo a humanidade”
O Concílio de Calcedônia, em 451, ofereceu a formulação clássica que impede tanto a divisão quanto a confusão. A Igreja confessa:
- um só e mesmo Filho;
- perfeito na divindade e perfeito na humanidade;
- verdadeiro Deus e verdadeiro homem;
- consubstancial ao Pai segundo a divindade;
- consubstancial a nós segundo a humanidade;
- nascido da Virgem Maria, Mãe de Deus, segundo a humanidade;
- reconhecido em duas naturezas, sem confusão, sem mudança, sem divisão e sem separação (DH 301-302).
A expressão “segundo a humanidade” é essencial. Maria não gera a natureza divina, que é eterna. Ela gera humanamente a pessoa do Filho eterno. O Filho recebe do Pai sua divindade desde toda a eternidade; recebe de Maria sua humanidade no tempo.
A união não mistura as naturezas. A humanidade não se transforma em divindade e a divindade não se reduz à humanidade. Ao mesmo tempo, as duas naturezas não formam dois indivíduos. O Filho que realiza milagres é o mesmo que sente fome; aquele que existe eternamente junto do Pai é o mesmo que nasce de Maria; aquele que sustenta a criação é o mesmo que é sustentado nos braços de sua mãe.
São Leão Magno defendeu vigorosamente essa cristologia das duas naturezas na unidade de uma única pessoa, preparação decisiva para Calcedônia.
O que o dogma afirma — e o que não afirma
Chamar Maria de Mãe de Deus significa que:
Jesus Cristo é uma única pessoa divina; essa pessoa assumiu uma natureza humana completa; Maria concebeu e deu à luz essa pessoa segundo sua humanidade; por isso, é verdadeiramente mãe do Filho de Deus encarnado.
O dogma não significa que Maria seja anterior a Deus. Não significa que tenha produzido a natureza divina. Não significa que seja mãe do Pai ou do Espírito Santo. Não a transforma numa quarta pessoa da Trindade. Não afirma que Maria seja uma deusa.
A fórmula mais precisa é: Maria é Mãe de Deus Filho segundo sua humanidade.
Toda mãe gera uma pessoa, não uma “natureza” abstrata. Uma mulher não é chamada apenas mãe do corpo de seu filho, mas mãe da pessoa inteira. Do mesmo modo, Maria não é mãe somente de uma parte humana separada de Jesus. Ela é mãe de Jesus Cristo, e Jesus Cristo é o Filho eterno de Deus.
Maria, mãe e discípula
A maternidade divina não elimina o caminho de fé de Maria. Ela precisa guardar e meditar os acontecimentos no coração (Lc 2,19.51). Nem sempre compreende imediatamente a missão do Filho (Lc 2,48-50). Permanece discípula, criatura e serva.
Santo Agostinho afirma que Maria é mais bem-aventurada por ter acolhido Cristo pela fé do que simplesmente por tê-lo concebido corporalmente. Isso não diminui sua maternidade física, mas revela sua profundidade espiritual. Maria recebe o Verbo no coração e no corpo.
Em A santa virgindade, Agostinho distingue sua maternidade corporal singular de sua pertença espiritual ao povo redimido. Maria é corporalmente mãe da Cabeça, Cristo; pela fé e caridade, pertence também à Igreja e coopera para o nascimento de seus membros (Santo Agostinho, A santa virgindade, 5-6).
A maternidade divina não deve, portanto, ser compreendida como privilégio que isola Maria. Ela a coloca inteiramente a serviço do Filho e de sua missão.
Maria e a Igreja
O Concílio Vaticano II situa Maria dentro do mistério de Cristo e da Igreja. A Lumen gentium começa sua exposição mariana recordando Gl 4,4-5: na plenitude do tempo, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, para que recebêssemos a adoção filial.
Maria acolheu o Verbo de Deus “no coração e no corpo” e trouxe a Vida ao mundo. É reconhecida como verdadeira Mãe de Deus e do Redentor, mas continua unida à humanidade necessitada de salvação. Foi redimida pelos méritos de seu Filho e é membro eminente e singular da Igreja, seu modelo na fé e na caridade (Lumen gentium, 52-53; DH 4172-4173).
A Igreja participa analogicamente da maternidade de Maria. Maria gerou corporalmente Cristo; a Igreja gera os membros de Cristo pela Palavra, pela fé e pelo batismo. Essa analogia não coloca ambas no mesmo nível, mas mostra que a Igreja deve aprender com Maria a acolher a Palavra antes de anunciá-la.
Uma Igreja mariana não é uma Igreja voltada para si mesma. É uma comunidade que recebe Cristo, guarda sua Palavra e o oferece ao mundo.
A liturgia confessa o dogma
A doutrina de Éfeso não permanece restrita aos tratados teológicos. Ela está presente na oração da Igreja. O Missal Romano celebra no dia 1º de janeiro, dentro da oitava do Natal, a Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus.
A antífona proclama:
“Salve, santa Mãe, vós destes à luz o Rei que governa o céu e a terra pelos séculos eternos.”
A coleta dirige-se ao Pai:
“Ó Deus, que pela virgindade fecunda de Maria destes à humanidade o dom da salvação eterna, dai-nos contar sempre com a intercessão daquela que nos trouxe o autor da vida, Jesus Cristo.”
A liturgia não termina em Maria. Ela celebra aquele que Maria trouxe: Jesus Cristo, “autor da vida”, verdadeiro Deus. A maternidade divina é celebrada no interior do mistério do Natal e da salvação (Missal Romano, Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus, p. 138).
Em outra oração, o Missal afirma explicitamente que a Igreja crê que Maria é “verdadeiramente a Mãe de Deus” e pede que a encarnação do Filho produza em nós a salvação.
Significado espiritual
Contemplar Maria como Mãe de Deus significa contemplar a seriedade da encarnação. Deus não salvou a humanidade à distância. O Filho entrou no ventre de uma mulher, recebeu dela a carne, foi gestado, nasceu, foi alimentado, educado e inserido numa família e num povo.
O dogma afirma que a matéria, o corpo e a história humana podem tornar-se lugar da presença de Deus. O ventre de Maria torna-se morada do Verbo não porque a humanidade seja divina em si mesma, mas porque Deus, por graça, quis assumi-la e santificá-la.
A maternidade divina revela igualmente a dignidade da mulher. Deus não trata Maria como objeto ou instrumento inconsciente. Dirige-lhe a Palavra, espera sua resposta e associa sua liberdade à história da salvação. Seu “sim” não causa a encarnação, mas acolhe livremente a ação do Espírito.
Maria ensina também que receber Cristo conduz ao serviço. Depois da anunciação, ela parte ao encontro de Isabel. A Mãe de Deus não guarda o Filho como propriedade; leva sua presença aos outros.
Por fim, o título Theotókos mantém Cristo no centro. Toda autêntica devoção mariana deve conduzir à confissão de Jesus como verdadeiro Deus e verdadeiro homem. Quando a veneração de Maria obscurece Cristo, perde seu fundamento. Quando Maria é contemplada dentro do mistério da encarnação, sua grandeza aparece em sua verdadeira luz: ela é a criatura que recebeu do Pai a graça de dar ao Filho eterno uma verdadeira humanidade.
Conclusão
Maria é Mãe de Deus porque Jesus não é duas pessoas, uma divina e outra humana. Ele é o único Filho eterno do Pai, que assumiu uma humanidade completa e nasceu verdadeiramente dela.
Paulo anuncia que Deus enviou seu Filho, nascido de mulher (Gl 4,4). Mateus proclama que o filho de Maria é o Emanuel, Deus conosco (Mt 1,23). Lucas afirma que o Santo nascido dela é o Filho de Deus e registra a confissão inspirada de Isabel: “a mãe do meu Senhor” (Lc 1,35.43). João proclama que o Verbo que era Deus se fez carne (Jo 1,1.14).
Os Padres defenderam que o Verbo recebeu de Maria verdadeira humanidade. Niceia confessou sua divindade; Constantinopla, sua encarnação pelo Espírito e pela Virgem; Éfeso afirmou a unidade de sua pessoa e reconheceu Maria como Theotókos; Calcedônia esclareceu que ela é Mãe de Deus segundo a humanidade.
O dogma não diviniza Maria. Ele confessa a divindade de seu Filho e a verdade de sua encarnação. Chamar Maria de Mãe de Deus é dizer que aquele que ela carregou no ventre, deu à luz e colocou nos braços é o mesmo Filho eterno por quem todas as coisas foram criadas.
Diante desse mistério, a Igreja contempla a humildade de Deus e aprende com Maria a responder:
“Eis aqui a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1,38).


