
Maria, Mãe da Igreja
12/06/2026
Misericórdia, o amor de Deus!
13/06/2026Perdão, caminho de cura e salvação
Introdução
O perdão ocupa o centro da revelação cristã porque manifesta quem Deus é e revela o que Ele deseja realizar na humanidade ferida pelo pecado. A Sagrada Escritura não apresenta o perdão como simples esquecimento de uma falta, tolerância diante do mal ou declaração exterior de inocência. Perdoar, na perspectiva bíblica, significa retirar o ser humano da escravidão do pecado, restaurar a comunhão rompida, curar as feridas interiores e reconduzir a pessoa ao caminho da vida.
O perdão é, por isso, inseparável da cura e da salvação. Deus não perdoa apenas para apagar uma dívida do passado, mas para tornar possível um futuro novo. Sua misericórdia alcança o pecador em sua fragilidade, devolve-lhe a dignidade perdida e oferece-lhe a graça necessária para que não permaneça prisioneiro das escolhas que o feriram. Cristo apresenta-se como o médico das almas e dos corpos, enviado para procurar os perdidos, chamar os pecadores à conversão e comunicar-lhes a vida do Pai (Mc 2,1-12; Lc 5,31-32; 19,10).
A Igreja reconhece, portanto, no sacramento da Penitência e da Reconciliação uma continuação da obra curadora e salvadora de Jesus. O Catecismo afirma que Cristo, médico das almas e dos corpos, quis que a Igreja continuasse, pela força do Espírito Santo, sua obra de cura e salvação, especialmente mediante os sacramentos da Penitência e da Unção dos Enfermos (CIC 1420-1422). O perdão sacramental não é somente uma sentença que declara a culpa absolvida; é encontro com Cristo ressuscitado, ação medicinal da graça e reinserção na comunhão com Deus e com a Igreja.
O pecado como ruptura e ferida
Para compreender a grandeza do perdão, é necessário reconhecer a gravidade do pecado. O pecado não é apenas a transgressão exterior de uma norma. Ele é uma ruptura da comunhão para a qual o ser humano foi criado. Ao afastar-se de Deus, a pessoa desorganiza sua relação consigo mesma, fere os vínculos com os irmãos e compromete sua participação na vida da comunidade.
A narrativa de Gn 3 descreve essa desordem. Depois de pecar, o ser humano esconde-se de Deus, experimenta vergonha, acusa o outro e tenta fugir da própria responsabilidade (Gn 3,7-13). O pecado produz medo onde antes havia confiança, acusação onde deveria existir comunhão e isolamento onde deveria haver encontro. A pergunta divina — “Onde estás?” — não manifesta desconhecimento, mas constitui um chamado para que o ser humano saia do esconderijo, reconheça sua situação e volte à presença daquele que o procura (Gn 3,9).
A ruptura provocada pelo pecado manifesta-se em diferentes níveis. Há ruptura com Deus, porque o pecador recusa sua vontade; ruptura consigo mesmo, porque se afasta de sua verdade e dignidade; ruptura com o próximo, porque o egoísmo gera violência, injustiça e indiferença; e ruptura com a criação, porque o ser humano deixa de exercer uma relação responsável com aquilo que lhe foi confiado. Por essa razão, a reconciliação plena exige mais do que um sentimento passageiro: requer conversão do coração e libertação das raízes do pecado (RP 3-4).
A consciência cristã do pecado, contudo, nunca deve conduzir ao desespero. Reconhecer o pecado não significa concluir que a pessoa está definitivamente perdida. Ao contrário, a verdadeira consciência da culpa abre o coração para a misericórdia. Quando a culpa se fecha sobre si mesma, transforma-se em condenação e desespero; quando é apresentada a Deus com humildade, torna-se início de conversão e salvação.
Jesus Cristo, o médico que perdoa e cura
A cura do paralítico em Mc 2,1-12 revela de modo particular a unidade entre perdão, cura e salvação. Um homem paralítico é conduzido até Jesus por quatro pessoas. Como a multidão impede a entrada, os carregadores abrem o teto e descem o enfermo diante do Senhor. Jesus, vendo a fé deles, declara: “Filho, os teus pecados estão perdoados” (Mc 2,5).
A primeira palavra de Jesus não é uma ordem dirigida às pernas paralisadas, mas uma declaração de perdão. Ele chama o homem de “filho”, reinserindo-o numa relação de proximidade e confiança. Antes de fazê-lo caminhar fisicamente, restaura sua comunhão com Deus. O gesto revela que a salvação oferecida por Cristo alcança a totalidade da pessoa e vai além da solução imediata de uma necessidade corporal.
Os escribas consideram a declaração uma blasfêmia, pois reconhecem corretamente que somente Deus pode perdoar os pecados (Mc 2,6-7). Jesus, porém, não recua. Para manifestar que o Filho do Homem possui na terra autoridade para perdoar, ordena ao paralítico: “Levanta-te, toma o teu leito e vai para tua casa” (Mc 2,11). A cura visível confirma a autoridade invisível de sua palavra de perdão. O homem que havia chegado carregado sai caminhando e levando o próprio leito. Aquilo que antes o sustentava passa a ser carregado por ele.
Essa passagem não autoriza afirmar que toda enfermidade física seja consequência direta de um pecado pessoal. O próprio Jesus rejeita essa simplificação em outros episódios (Lc 13,1-5; Jo 9,1-3). A união entre perdão e cura em Mc 2 revela, antes, que Cristo possui autoridade sobre todas as formas de mal que oprimem a pessoa. Sua salvação é integral: alcança o corpo, a consciência, os relacionamentos e a esperança.
Espiritualmente, o paralítico representa também a pessoa imobilizada pela culpa, pelo medo, pela vergonha ou pela convicção de que não merece recomeçar. O perdão de Cristo não nega a realidade de sua situação, mas rompe o poder que a mantém no chão. A palavra “levanta-te” é uma palavra de ressurreição. A misericórdia não mantém a pessoa acomodada em sua paralisia; restitui-lhe a capacidade de caminhar.
A presença dos quatro carregadores possui igualmente grande significado eclesial. Há momentos em que a pessoa ferida já não consegue aproximar-se sozinha de Cristo. Necessita ser sustentada pela fé, pela oração e pela caridade da comunidade. A Igreja participa da obra de cura quando não abandona aquele que caiu, mas o conduz até Jesus, mesmo quando precisa superar obstáculos para fazê-lo.
O Pai que restitui a dignidade
A parábola do pai misericordioso, tradicionalmente chamada parábola do filho pródigo, constitui uma das maiores revelações bíblicas acerca do perdão (Lc 15,11-32). O filho mais novo pede antecipadamente a parte da herança que lhe cabe. Na cultura familiar daquele tempo, seu pedido equivale simbolicamente a desejar viver como se o pai já estivesse morto. Ele quer os bens do pai, mas não deseja permanecer na comunhão com o pai.
Depois de partir, dissipa tudo e termina cuidando de porcos, situação que, para um judeu, representava extrema degradação religiosa e social. O afastamento, inicialmente apresentado como liberdade, transforma-se em fome, solidão, humilhação e perda da identidade. O pecado promete autonomia, mas produz escravidão.
O início da conversão ocorre quando o filho “cai em si” (Lc 15,17). Converter-se é recuperar a verdade sobre Deus e sobre si mesmo. O pecado havia produzido uma falsa imagem do pai e uma falsa ideia de liberdade. Ao recordar a casa paterna, o filho começa a sair interiormente do lugar onde se perdera.
Ele prepara uma confissão: “Pai, pequei contra o céu e contra ti” (Lc 15,18). Não procura justificar-se, acusar outras pessoas ou diminuir a gravidade de suas escolhas. Reconhece sua responsabilidade e decide regressar. A conversão possui, portanto, uma dimensão interior e outra concreta: é tomada de consciência, mas também mudança de direção.
O centro da parábola, entretanto, não é a miséria do filho, mas a misericórdia do pai. Quando o filho ainda está longe, o pai o vê, enche-se de compaixão, corre ao seu encontro, abraça-o e cobre-o de beijos (Lc 15,20). Antes que o filho termine o discurso preparado, o pai ordena que tragam a melhor túnica, o anel e as sandálias. Esses sinais não são simples presentes; representam a restauração da condição filial, da liberdade e da dignidade.
O pai não acolhe o filho como escravo tolerado, mas como filho reencontrado. A misericórdia não humilha o pecador arrependido nem o mantém eternamente definido por seu passado. O perdão restitui-lhe um nome, uma casa e um lugar à mesa. “Este meu filho estava morto e tornou a viver; estava perdido e foi encontrado” (Lc 15,24). O perdão aparece como passagem da morte para a vida, da perda para o reencontro e do isolamento para a festa.
A parábola também apresenta o filho mais velho, que permaneceu fisicamente na casa, mas não aprendeu a participar do coração do pai. Sua obediência transformou-se em ressentimento, comparação e julgamento. Ele não chama o pródigo de irmão, mas diz ao pai: “Esse teu filho” (Lc 15,30). Também ele necessita de cura. O mais novo precisa ser libertado de seus pecados evidentes; o mais velho precisa ser curado da dureza, da autossuficiência e da incapacidade de alegrar-se com a salvação do outro.
A reconciliação, por conseguinte, não está completa apenas quando o pecador retorna. É necessário que a comunidade abra espaço para recebê-lo. O Pai sai ao encontro dos dois filhos: corre em direção ao que regressa e suplica ao que se recusa a entrar. A misericórdia de Deus procura tanto os que se perderam longe quanto os que, mesmo permanecendo exteriormente próximos, endureceram o coração.
Misericórdia que não condena, mas chama à conversão
O encontro de Jesus com a mulher acusada de adultério manifesta outra dimensão do perdão (Jo 8,1-11). A mulher é colocada no centro de uma disputa. Para seus acusadores, ela deixou de ser uma pessoa e tornou-se apenas um caso, uma culpa e um instrumento para acusar Jesus.
O Senhor não nega a gravidade do pecado nem afirma que a conduta da mulher seja indiferente. Entretanto, recusa-se a permitir que a verdade seja usada como arma de destruição. Diante dos acusadores, declara: “Quem dentre vós estiver sem pecado seja o primeiro a atirar-lhe uma pedra” (Jo 8,7). A palavra de Jesus conduz cada pessoa a abandonar a posição de juiz absoluto e a reconhecer a própria necessidade de misericórdia.
Quando os acusadores se retiram, permanecem a pecadora e o Salvador. Santo Agostinho descreveu essa cena com uma expressão breve e profunda: permanecem “a miséria e a misericórdia”. Jesus pergunta: “Ninguém te condenou?” Depois declara: “Eu também não te condeno. Vai e, de agora em diante, não tornes a pecar” (Jo 8,10-11).
As duas afirmações devem permanecer unidas. “Eu não te condeno” manifesta o dom gratuito do perdão; “não tornes a pecar” revela a exigência de uma vida transformada. Uma misericórdia que não chamasse à conversão deixaria a pessoa prisioneira daquilo que a destrói. Uma exigência de conversão sem misericórdia esmagaria a pessoa sob o peso da culpa. Em Cristo, verdade e misericórdia encontram-se perfeitamente.
O perdão recebido permite à mulher olhar para o futuro. Jesus não a define pelo pior momento de sua história. Ele reconhece nela uma pessoa capaz de recomeçar. O perdão cristão não declara que o mal foi bom; afirma que o mal cometido não possui a última palavra sobre a vida daquele que se abre à graça (MM 1-2).
O perdão como dom pascal
O perdão dos pecados é um dos primeiros dons comunicados por Cristo ressuscitado. Na tarde da Páscoa, os discípulos encontram-se reunidos a portas fechadas, dominados pelo medo. Jesus coloca-se no meio deles e diz: “A paz esteja convosco” (Jo 20,19).
A paz anunciada pelo Ressuscitado não é simples saudação. É o fruto de sua Páscoa. Jesus mostra as mãos e o lado, isto é, apresenta as feridas de sua entrega. As marcas da violência não desapareceram, mas foram transfiguradas. Já não são sinais da vitória dos agressores, mas testemunho do amor que venceu o ódio e da vida que venceu a morte.
Depois de repetir o anúncio da paz, Jesus sopra sobre os discípulos e declara: “Recebei o Espírito Santo. A quem perdoardes os pecados, serão perdoados; a quem os retiverdes, serão retidos” (Jo 20,22-23). O gesto recorda o sopro criador de Deus sobre o ser humano (Gn 2,7). O perdão pertence, portanto, à nova criação inaugurada pela Páscoa.
A comunidade que havia sido marcada pelo medo, pela fuga e pela negação recebe a missão de comunicar o perdão. Os primeiros ministros da reconciliação não são homens que jamais falharam, mas discípulos perdoados e restaurados. Pedro havia negado Jesus; os demais haviam fugido. Agora, alcançados pela paz, são enviados a servir à reconciliação.
O poder de perdoar os pecados pertence propriamente a Deus, mas Cristo quis exercê-lo sacramentalmente na Igreja mediante os bispos e presbíteros. A absolvição não é uma palavra meramente humana. Por meio do ministro, é Cristo quem acolhe, perdoa e reconcilia o pecador arrependido (CIC 976-986; 1441-1442).
“Deixai-vos reconciliar com Deus”
São Paulo apresenta a obra de Cristo como uma grande reconciliação: “Deus, em Cristo, reconciliava consigo o mundo, não levando em conta os pecados dos homens, e colocou em nós a palavra da reconciliação” (2Cor 5,19). A iniciativa é de Deus. Não é o ser humano que, por seus próprios méritos, convence Deus a deixar de ser seu inimigo. É Deus quem, em Cristo, aproxima-se da humanidade e abre o caminho de volta.
O vocabulário paulino da reconciliação indica uma transformação da relação. Pela morte e ressurreição de Jesus, a situação de inimizade e afastamento é substituída pela comunhão. Por isso, Paulo afirma: “Se alguém está em Cristo, é nova criatura. As coisas antigas passaram; eis que se fizeram novas” (2Cor 5,17).
A reconciliação é dom, mas exige acolhimento: “Em nome de Cristo, suplicamo-vos: deixai-vos reconciliar com Deus” (2Cor 5,20). O ser humano não produz a salvação, mas pode resistir a ela. É necessário deixar-se encontrar, perdoar, transformar e conduzir.
Essa reconciliação com Deus gera outras reconciliações. A pessoa perdoada reconcilia-se com sua verdade interior, porque já não precisa esconder-se atrás de justificativas; reconcilia-se com a Igreja, ferida por seu pecado; procura reparar os danos causados aos irmãos; e aprende a relacionar-se de modo renovado com toda a criação (RP 31).
A tradição patrística: Cristo, médico da alma
A tradição dos Padres da Igreja desenvolveu de maneira especial a imagem de Cristo como médico e da graça como remédio. O pecado é compreendido como uma enfermidade que enfraquece a liberdade, desorganiza os desejos e impede a pessoa de viver plenamente em comunhão com Deus. A cura não pode ser alcançada apenas pela força da vontade humana; necessita da graça do Médico divino.
Santo Agostinho insiste que a responsabilidade pelo pecado pertence à vontade humana, mas sua cura depende mais da misericórdia de Deus do que das próprias forças. Reconhecer a necessidade da graça não destrói a liberdade; liberta a pessoa da ilusão de salvar-se sozinha. O esforço humano é necessário, mas precisa ser precedido, acompanhado e sustentado pelo auxílio de Deus (S. Agostinho, A natureza e a graça, 39-41).
Para Agostinho, o pecado não deve levar ao desespero da salvação. Os pecados dos homens e mulheres justos narrados na Escritura não foram conservados para legitimar novas quedas, mas para ensinar humildade, penitência e esperança. A lembrança de que outros caíram e foram levantados impede que o pecador conclua que sua história já não pode ser redimida.
Ao refletir sobre a pastoral penitencial, Agostinho afirma: “Eu quero curar, não acusar” (S. Agostinho, Sermão 82,8; RP 31). A expressão não elimina o reconhecimento da culpa. Para que uma ferida seja curada, precisa ser apresentada ao médico. A acusação sincera dos pecados no sacramento não tem por finalidade humilhar ou destruir a pessoa, mas retirar a enfermidade do esconderijo e colocá-la sob a ação da misericórdia.
A confissão é comparável ao gesto de um enfermo que mostra ao médico o local da dor. Esconder a ferida impede o tratamento; revelá-la com verdade abre espaço para a cura. Por isso, a confissão cristã não é um interrogatório opressor nem uma tentativa de autolibertação meramente psicológica. É um ato de fé pelo qual a pessoa coloca sua verdade diante de Deus e permite que Cristo a alcance por meio do ministério da Igreja.
Santo Ambrósio também reconhece a primazia da graça. Para ele, nada pode ser iniciado, construído ou preservado sem o auxílio de Deus. Ao comentar a mulher pecadora que unge os pés de Jesus, afirma que, diante da misericórdia divina, “mais ama quem devia mais, se alcançar a graça” (S. Ambrósio, Exp. Lc. VI,25). O perdão não produz indiferença moral; desperta amor agradecido. Quem toma consciência de quanto foi perdoado passa a amar com maior profundidade (Lc 7,36-50).
São Gregório Nazianzeno descreve a Penitência como um “batismo laborioso”. O Batismo concede gratuitamente a vida nova; a Penitência restaura, mediante o arrependimento e a conversão, a comunhão ferida depois do Batismo (CIC 980). São João Crisóstomo, por sua vez, contempla com admiração o poder confiado aos ministros da Igreja, recordando que os sacerdotes receberam, para o serviço do povo, uma missão de reconciliação que não foi confiada nem aos anjos (CIC 983).
Na perspectiva patrística, o sacramento é verdadeiramente uma medicina salutis, um remédio de salvação. O sacerdote não é dono do perdão, mas servidor do Médico divino. Deve agir como bom pastor que procura a ovelha perdida, como samaritano que trata as feridas e como pai que acolhe o filho que retorna (CIC 1465-1466).
O sacramento como tribunal de misericórdia e lugar de cura
A Igreja reconhece no sacramento da Reconciliação uma dimensão judicial, pois existe uma culpa real que precisa ser reconhecida e absolvida. Contudo, trata-se de um tribunal de misericórdia, incomparável aos tribunais humanos. O penitente não comparece diante de Deus para ser publicamente exposto, mas para reconhecer sua verdade, renunciar ao pecado e receber a absolvição (RP 31).
O sacramento possui igualmente uma dimensão terapêutica. Cristo apresenta-se no Evangelho como o médico que cura e conforta. A confissão permite ao ministro conhecer a situação concreta da pessoa, discernir suas feridas e oferecer uma orientação adequada. O confessor deve unir fidelidade à verdade, respeito pela consciência, delicadeza humana, paciência e confiança na ação da graça.
O caminho sacramental compreende o exame de consciência, a contrição, a confissão, a absolvição e a satisfação. Esses elementos não são etapas burocráticas, mas expressões de um itinerário de cura.
O exame de consciência não deve transformar-se numa introspecção ansiosa e escrupulosa. Consiste em colocar a própria vida diante da Palavra de Deus e perguntar, com sinceridade, onde o amor foi recusado, onde a comunhão foi ferida e onde a vontade de Deus deixou de ser acolhida (RP 31).
A contrição é a dor pelo pecado cometido, acompanhada do propósito de não voltar a pecar. Não é simples remorso. O remorso pode deixar a pessoa fechada em si mesma; a contrição volta o coração para Deus. Ela nasce quando a pessoa percebe que feriu o amor daquele que nunca deixou de amá-la.
A confissão dá nome ao pecado. Enquanto a pessoa fala de modo genérico — “todos erram”, “não sou pior do que os outros” — permanece distante de sua responsabilidade. A conversão amadurece quando consegue dizer: “Eu pequei” (Sl 51,6; Lc 15,18). Confessar não significa reduzir toda a identidade aos erros cometidos, mas reconhecer com verdade aquilo que precisa ser entregue à misericórdia.
A absolvição é o momento em que Cristo, por meio do sacerdote, comunica o perdão e a paz. Não é apenas uma palavra de incentivo. É ação sacramental na qual o pecador arrependido entra em contato com o poder da Páscoa de Cristo.
A satisfação ou penitência expressa a decisão de iniciar uma existência renovada. Ela pode assumir a forma de oração, caridade, misericórdia, reparação ou serviço. O perdão apaga a culpa, mas permanecem consequências, hábitos desordenados e feridas que precisam ser tratados. A penitência não compra o perdão já concedido; coopera com a graça no processo de cura e reparação (CIC 1459-1460; RP 31).
Perdão recebido e perdão oferecido
O perdão recebido de Deus precisa transformar a maneira de tratar os irmãos. Jesus colocou essa relação no centro da oração cristã: “Perdoai-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores” (Mt 6,12). Aquele que pede misericórdia reconhece que também é chamado a tornar-se misericordioso.
Na parábola do servo sem compaixão, um homem recebe do rei o perdão de uma dívida imensa, mas se recusa a perdoar uma dívida muito menor de seu companheiro (Mt 18,23-35). A contradição está em querer viver da misericórdia sem permitir que ela transforme o coração. O perdão divino não é um privilégio particular; é uma graça que torna a pessoa capaz de interromper a corrente da vingança.
Perdoar não significa afirmar que o mal não aconteceu, considerar justa uma violência ou eliminar a necessidade de reparação. Misericórdia e justiça não são inimigas. A misericórdia supera a lógica da vingança, mas não chama o mal de bem. Ela procura restaurar a pessoa e reconstruir a comunhão na verdade (MV 20-21).
O perdão também não deve ser confundido com a restauração automática de todas as formas de convivência. O perdão pode ser oferecido por aquele que foi ferido como renúncia ao ódio e à vingança; a reconciliação interpessoal plena, porém, exige verdade, arrependimento, mudança de comportamento e condições reais para uma relação segura e justa. A misericórdia cristã não obriga a pessoa ferida a permanecer exposta à violência.
Perdoar é entregar a Deus o direito de vingança e recusar-se a permitir que o agressor continue dominando interiormente a vida daquele que foi ferido. Trata-se frequentemente de um caminho, e não de um sentimento instantâneo. A decisão de perdoar pode preceder a cura completa das emoções. A graça atua gradualmente, purificando a memória e tornando possível recordar sem permanecer aprisionado ao desejo de retribuição.
O perdão como caminho de salvação
A salvação cristã não consiste apenas em evitar uma condenação futura. É participação na vida de Deus, recuperação da condição filial e entrada na comunhão do amor trinitário. O perdão remove aquilo que impede essa comunhão e devolve ao ser humano a graça perdida.
Os efeitos do sacramento da Penitência manifestam sua dimensão salvadora: reconciliação com Deus e com a Igreja, recuperação da graça, remissão da pena eterna, paz e serenidade da consciência, consolação espiritual e fortalecimento para o combate cristão (CIC 1496).
O Missal Romano apresenta o sacramento da Reconciliação como o “porto da misericórdia e da paz” aberto em Cristo morto e ressuscitado. Depois do naufrágio provocado pelo pecado, a Igreja recebe a Penitência como uma segunda tábua de salvação após o Batismo (MR, Prefácio da Reconciliação). A imagem é profundamente espiritual: o pecador não é abandonado no mar de suas quedas; Deus oferece-lhe um caminho de retorno.
A liturgia também reconhece que Jesus é a Palavra de salvação dirigida à humanidade, a mão que o Pai estende aos pecadores e o caminho pelo qual nos é concedida a paz. A reconciliação é celebrada na Eucaristia porque brota do sacrifício pascal de Cristo. Seu sangue não é sinal de vingança, mas preço da paz e manifestação do amor que assume o pecado para destruí-lo.
A cura iniciada pelo perdão não termina no momento da absolvição. A pessoa reconciliada é chamada a permanecer unida a Cristo pela oração, pela Eucaristia, pela escuta da Palavra, pelas obras de misericórdia e pela vigilância. Santo Agostinho recorda que Deus não apenas cura a alma enferma, mas continua acompanhando-a depois da cura. A graça perdoa as quedas passadas e sustenta o combate contra as tentações futuras.
O perdão não nos devolve simplesmente ao ponto anterior à queda. Quando verdadeiramente acolhido, pode tornar-nos mais humildes, compassivos e conscientes da necessidade da graça. Pedro não voltou a ser exatamente o homem que era antes de negar Jesus. A experiência do perdão tornou-o capaz de apascentar o rebanho sem depender apenas de sua autoconfiança (Lc 22,31-32; Jo 21,15-19).
Conclusão
O perdão é caminho de cura porque alcança as feridas que o pecado produz na consciência, nos afetos e nos relacionamentos. É caminho de reconciliação porque restaura a comunhão com Deus, com a Igreja, consigo mesmo e com os irmãos. É caminho de salvação porque comunica novamente a graça e introduz a pessoa na vida nova inaugurada pela morte e ressurreição de Cristo.
Deus não espera que o pecador se cure sozinho para então aproximar-se dele. É o encontro com a misericórdia que inicia a cura. O Pai corre ao encontro do filho ainda coberto pelas marcas de sua miséria; Cristo dirige sua palavra ao paralítico ainda deitado; o Ressuscitado entra na sala onde os discípulos permanecem fechados pelo medo. A misericórdia encontra a pessoa onde ela está, mas não a abandona nessa situação.
A experiência cristã do perdão pode ser resumida em três movimentos. Primeiro, deixar-se encontrar por Deus, reconhecendo humildemente a própria necessidade. Depois, deixar-se curar, acolhendo a graça, a verdade e o caminho concreto da conversão. Finalmente, tornar-se instrumento de misericórdia, oferecendo aos outros aquilo que se recebeu.
Assim, o sacramento da Reconciliação não é lugar de humilhação destrutiva, mas encontro pascal; não é tribunal de condenação, mas tribunal de misericórdia; não é simples recordação do passado, mas abertura de um futuro novo. Nele, Cristo continua dizendo ao pecador: “Os teus pecados estão perdoados”; “levanta-te”; “eu não te condeno”; “vai em paz” (Mc 2,5.11; Jo 8,11; Lc 7,50).
O perdão de Deus não muda apenas aquilo que está escrito a respeito de nosso passado. Ele transforma o sentido de nossa história, cura nosso presente e abre diante de nós o caminho da salvação.
Siglas e referências documentais
CIC — Catecismo da Igreja Católica.
RP — São João Paulo II, Exortação Apostólica Reconciliatio et Paenitentia.
MV — Papa Francisco, Bula Misericordiae Vultus.
MM — Papa Francisco, Carta Apostólica Misericordia et misera.
MR — Missal Romano, terceira edição para o Brasil.
DS — Denzinger, Compêndio dos símbolos, definições e declarações de fé e moral.
NCBSJ — Novo Comentário Bíblico São Jerônimo: Novo Testamento e artigos sistemáticos.


