
Perdão, caminho de cura e salvação
13/06/2026
Coordenador Diocesano de Pastoral
23/06/2026Misericórdia, o amor de Deus!
Introdução
A misericórdia não é apenas uma atitude ocasional de Deus diante da fragilidade humana. Ela revela o próprio modo pelo qual Deus se aproxima de suas criaturas, especialmente quando estão feridas, afastadas ou oprimidas pelo pecado. A misericórdia é o amor divino que percebe a miséria, inclina-se sobre ela e trabalha para restaurar a dignidade daquele que sofre. Por isso, São João Paulo II pôde apresentar a misericórdia como o segundo nome do amor, isto é, o amor enquanto encontra a fraqueza humana e age para salvá-la (DM 7).
Não se trata de um sentimento superficial, de permissividade diante do mal ou de simples tolerância com o pecado. Deus é misericordioso porque ama verdadeiramente. Seu amor não abandona a pessoa em sua condição de sofrimento, mas entra em sua história, chama-a à conversão, cura suas feridas e abre diante dela um caminho novo. A misericórdia não nega a verdade; liberta a pessoa para que possa acolhê-la. Não elimina a justiça; conduz a justiça à sua finalidade mais profunda, que é restaurar a comunhão e devolver vida àquele que estava perdido.
A Sagrada Escritura, a experiência das primeiras comunidades cristãs, o testemunho dos Padres da Igreja e a oração litúrgica mostram que toda a história da salvação pode ser compreendida como uma história da misericórdia. O Deus que cria é o mesmo que procura o ser humano depois do pecado; o Deus que liberta Israel é o mesmo que envia os profetas; o Deus que fala pelos profetas é o mesmo que, na plenitude dos tempos, entrega seu próprio Filho. Em Jesus Cristo, a misericórdia divina recebe um rosto humano, mãos que tocam os enfermos, olhos que contemplam os pecadores e um coração aberto na cruz.
O Deus misericordioso da Aliança
No Antigo Testamento, a misericórdia aparece inseparavelmente ligada à identidade de Deus. Quando o Senhor revela seu nome a Moisés, apresenta-se como Deus compassivo, clemente, paciente e rico em amor e fidelidade (Ex 34,6-7). Essa autodefinição torna-se uma espécie de profissão de fé repetida ao longo da Escritura. Deus não é indiferente ao sofrimento de seu povo. Ele vê a opressão, escuta o clamor, conhece as dores e desce para libertar (Ex 3,7-8).
A misericórdia possui, portanto, uma dimensão de Aliança. Deus permanece fiel mesmo quando o povo se mostra infiel. Sua fidelidade não significa aprovação do pecado, mas decisão de não abandonar sua obra. O pecado rompe a comunhão, porém não destrói o propósito salvador de Deus. Sua palavra continua chamando, corrigindo, educando e oferecendo o retorno.
O Sl 103(102) celebra essa identidade divina ao proclamar que o Senhor é compassivo, paciente e rico em misericórdia. Ele não trata a humanidade segundo suas faltas nem retribui conforme suas culpas. Como um pai se compadece de seus filhos, Deus se compadece daqueles que o temem, pois conhece a fragilidade humana e recorda que somos pó (Sl 103(102),8-14). A imagem paterna não elimina a responsabilidade, mas situa a correção dentro de uma relação de amor.
O profeta Oseias aprofunda essa revelação por meio da imagem de um pai que ensinou o filho a caminhar, tomou-o nos braços e inclinou-se para alimentá-lo. Mesmo diante da infidelidade de Israel, Deus declara que seu coração se comove e sua compaixão se inflama (Os 11,1-9). A misericórdia revela, assim, uma tensão interior: Deus não é indiferente ao pecado, mas seu desejo de salvar é maior que sua vontade de punir.
Essa revelação prepara a plena manifestação do amor divino em Jesus Cristo. O Deus misericordioso não permanece distante, apenas contemplando a miséria humana. Ele entra na história, assume nossa condição e faz da própria vida um caminho de aproximação.
Jesus Cristo, rosto da misericórdia do Pai
O Novo Testamento apresenta Jesus como a manifestação visível do amor invisível de Deus. “Deus amou tanto o mundo que entregou o seu Filho único”, não para condenar, mas para salvar (Jo 3,16-17). A misericórdia não é apenas algo que Jesus ensina; é aquilo que ele é e realiza.
O Novo Comentário Bíblico São Jerônimo destaca que a missão de Jesus, especialmente no Evangelho segundo Lucas, é marcada pela busca dos perdidos e dos pecadores, a fim de restaurá-los à comunhão com Deus. Jesus não anuncia a misericórdia de maneira abstrata. Ele a torna presente quando se aproxima dos enfermos, toca os considerados impuros, come com publicanos, acolhe mulheres desprezadas e devolve esperança aos que haviam sido excluídos.
Na ressurreição do filho da viúva de Naim, Jesus encontra uma mulher que perdera seu único filho (Lc 7,11-17). Além da dor materna, ela se encontrava numa situação de grave vulnerabilidade social. O Evangelho afirma que o Senhor, ao vê-la, encheu-se de compaixão. A iniciativa pertence a Jesus: a mulher não lhe dirige um pedido, não apresenta uma profissão de fé nem promete algo em troca. O Senhor vê sua dor e aproxima-se.
A compaixão conduz Jesus a tocar o esquife, gesto que ultrapassava as preocupações relacionadas à pureza ritual. Quando a vida humana está ameaçada, a misericórdia revela a finalidade verdadeira da lei: conduzir à vida e à comunhão. Jesus devolve o filho à mãe, repetindo simbolicamente os grandes gestos proféticos de Elias e Eliseu. Em sua ação, Deus visita o povo necessitado e revela que sua misericórdia é mais forte que a morte.
Na parábola do bom samaritano, a misericórdia torna-se o critério concreto para compreender quem pertence verdadeiramente ao povo de Deus (Lc 10,25-37). Um sacerdote e um levita veem o homem ferido, mas passam adiante. O samaritano, considerado estrangeiro e religiosamente suspeito, vê, compadece-se, aproxima-se, trata as feridas e assume os custos de seu cuidado.
Jesus transforma a pergunta “Quem é o meu próximo?” em outra mais exigente: “De quem eu me torno próximo?”. A misericórdia não permite escolher previamente quem merece ser amado. Ela rompe fronteiras, vence preconceitos e aproxima a pessoa daquele que sofre. O samaritano não investiga a origem, a moralidade ou a religião do homem caído; reconhece simplesmente alguém cuja vida precisa ser protegida.
O comentário bíblico observa que aquele que pratica a misericórdia demonstra, por seus atos, compreender a vontade de Deus. A lei alcança sua verdade quando conduz ao amor concreto. Por isso, Jesus encerra a parábola com uma ordem: “Vai e faze tu o mesmo” (Lc 10,37). A misericórdia contemplada deve tornar-se misericórdia praticada.
O Pai que procura, espera e acolhe
O capítulo 15 do Evangelho segundo Lucas reúne três parábolas sobre aquilo que estava perdido: a ovelha, a moeda e os dois filhos (Lc 15,1-32). Elas são pronunciadas porque os fariseus e escribas murmuravam ao ver Jesus acolher pecadores e comer com eles. A resposta de Cristo não é uma argumentação abstrata, mas a revelação da alegria de Deus quando um pecador retorna.
O pastor deixa as noventa e nove ovelhas para procurar aquela que se perdeu. A mulher acende a lâmpada, varre a casa e procura cuidadosamente a moeda. O pai avista de longe o filho que retorna, corre ao seu encontro, abraça-o e devolve-lhe os sinais da dignidade filial. Em cada narrativa, o centro não está apenas no objeto perdido, mas no movimento de quem procura e na alegria do reencontro.
A misericórdia divina é anterior ao mérito humano. O filho mais novo começa a regressar motivado pela fome e pela lembrança da casa paterna. Ainda está preparando sua confissão quando o pai corre ao seu encontro. O abraço precede a conclusão do discurso. A túnica, o anel e as sandálias revelam que ele não será recebido como escravo tolerado, mas restaurado como filho.
O pai não declara boa a conduta do jovem nem afirma que seu afastamento foi irrelevante. A festa é possível justamente porque houve morte e retorno à vida, perda e reencontro (Lc 15,24). A misericórdia não chama o mal de bem; impede que o mal tenha a última palavra.
O filho mais velho também necessita de misericórdia. Embora tenha permanecido na casa, seu coração está distante do pai. Ele relaciona-se como servo, compara-se com o irmão e não consegue participar da alegria do reencontro. O pai sai também ao seu encontro. A misericórdia procura tanto aquele que se perdeu longe quanto aquele que, permanecendo exteriormente próximo, endureceu o coração.
Graça radical e amor sem limites
A mensagem moral de Jesus não pode ser separada da experiência da graça. O Novo Comentário Bíblico São Jerônimo observa que as exigências de amor aos inimigos, perdão e misericórdia sem medida tornam-se compreensíveis quando a pessoa experimenta, em Jesus, o perdão e a acolhida de Deus. A exigência radical nasce da graça radical.
Jesus não ordena que seus discípulos sejam misericordiosos para conquistarem o amor de Deus. Eles são chamados a amar porque foram amados: “Sede misericordiosos como vosso Pai é misericordioso” (Lc 6,36). A vida cristã não é uma tentativa ansiosa de merecer a graça, mas resposta agradecida à graça recebida.
Essa dinâmica aparece na mulher pecadora que unge os pés de Jesus (Lc 7,36-50). Seu amor abundante manifesta a consciência do perdão recebido. Jesus não aprova seu passado, mas reconhece a transformação presente. A misericórdia desperta gratidão, e a gratidão torna-se amor.
Santo Ambrósio, retomado por Santo Agostinho, explica que, diante da misericórdia de Deus, “mais ama quem devia mais, se alcançar a graça”. Não é o pecado que produz o amor, mas a experiência de ter sido gratuitamente alcançado e levantado. Quem reconhece a profundidade do perdão recebido abandona a autossuficiência e aprende a olhar os outros com maior compaixão (Ambrósio, Exp. Lc. VI,25; Agostinho, A graça de Cristo, 48).
A misericórdia e a ação interior da graça
A tradição patrística não compreende a conversão como resultado exclusivo do esforço humano. A pessoa é verdadeiramente chamada a responder, arrepender-se e cooperar, mas até mesmo esse movimento acontece sob a ação preveniente da graça.
Ao comentar as lágrimas de Pedro depois das negações, Santo Ambrósio afirma que o apóstolo chorou quando foi alcançado pelo olhar de Cristo (Lc 22,61-62). Santo Agostinho interpreta esse olhar como ação interior da misericórdia. Cristo toca o coração de Pedro, desperta sua memória, ilumina sua consciência e faz brotar lágrimas que se transformam em amor.
O olhar de Jesus não destrói Pedro nem o reduz ao pecado cometido. Revela-lhe a verdade, mas comunica simultaneamente a possibilidade do retorno. A misericórdia permite que Pedro reconheça a gravidade de sua queda sem mergulhar no desespero. Posteriormente, o Ressuscitado não o humilha diante dos outros discípulos; pergunta-lhe pelo amor e confia-lhe novamente uma missão (Jo 21,15-19).
Essa experiência confirma o princípio patrístico de que nada pode começar sem Deus. A liberdade humana é real, mas necessita ser curada, iluminada e sustentada. A graça não elimina a vontade; liberta-a daquilo que a impede de escolher plenamente o bem.
A misericórdia divina manifesta-se, portanto, como graça que precede, acompanha e leva à plenitude. Deus procura antes de ser procurado, chama antes de receber uma resposta e sustenta a pessoa durante todo o caminho de conversão.
A misericórdia na Igreja antiga
A história da Igreja mostra que a misericórdia não permaneceu apenas como tema doutrinal. Ela se tornou forma de vida, organização comunitária, disciplina penitencial, serviço aos pobres e cuidado pastoral.
A Didaqué, um dos mais antigos escritos cristãos depois dos livros do Novo Testamento, apresenta a vida cristã como escolha entre dois caminhos: o caminho da vida e o caminho da morte. O caminho da vida é marcado pelo amor a Deus, ao próximo, pela partilha, pela oração, pelo jejum e pela conversão. A misericórdia aparece como prática comunitária, não apenas como disposição interior.
As primeiras comunidades compreenderam que o culto não poderia ser separado da vida fraterna. A preparação para o Batismo envolvia conversão concreta, jejum e inserção numa comunidade. A Eucaristia reunia um povo chamado a viver reconciliado e a transformar a fé professada em cuidado pelos necessitados.
A controvérsia donatista, ocorrida especialmente no norte da África, colocou em confronto o rigorismo e a acolhida daqueles que haviam falhado durante as perseguições. A questão não era apenas disciplinar, mas eclesiológica: a Igreja deveria ser compreendida como comunidade reservada aos que se consideravam puros ou como povo continuamente purificado pela graça?
Santo Agostinho combateu a pretensão de uma comunidade baseada na suposta perfeição de seus membros. A santidade da Igreja não provém da impecabilidade humana, mas de Cristo, que a santifica e continua curando seus filhos. A Igreja é santa e, ao mesmo tempo, lugar em que pecadores são chamados à conversão. Sua disciplina deve proteger a verdade, mas não pode fechar as portas da reconciliação.
Historicamente, a misericórdia ajudou a Igreja a compreender que a correção deve procurar a salvação da pessoa, e não sua destruição. A penitência não existe para excluir definitivamente, mas para curar a comunhão rompida e favorecer o retorno.
Misericórdia e justiça para os pobres
Os Padres da Igreja também ensinaram que a misericórdia recebida de Deus precisa transformar a relação com os bens e com os pobres. Não é possível celebrar o amor divino e permanecer indiferente diante da fome, da exploração e da exclusão.
São Basílio Magno exerceu seu ministério num período de fortes desigualdades sociais. Durante uma grave fome, denunciou a acumulação dos poderosos e a situação de pais obrigados a vender os próprios filhos para sobreviver. Sua palavra foi acompanhada pelo testemunho: distribuiu seus bens e organizou obras de acolhimento e assistência.
Para Basílio, aquilo que o rico conserva além de sua necessidade pertence, em certo sentido, ao pobre que carece do indispensável. A esmola não é simples favor concedido de cima para baixo, mas restituição daquilo que Deus destinou ao bem comum. A misericórdia assume, assim, uma dimensão de justiça.
São João Crisóstomo desenvolveu uma intensa atividade catequética, litúrgica e caritativa. Sua pregação moral e social insistia na responsabilidade dos cristãos diante dos pobres. A tradição ligada a seu ministério recorda que a honra prestada a Cristo no altar deve continuar no cuidado com Cristo presente nos necessitados (Mt 25,31-46).
A Eucaristia não permite separar o Corpo sacramental de Cristo de seu Corpo ferido na humanidade. Quem recebe o pão da comunhão é chamado a repartir o pão cotidiano. Quem contempla o sangue derramado deve comprometer-se com aqueles cuja dignidade continua sendo sacrificada.
São Gregório Magno, por sua vez, uniu governo pastoral, solicitude pelos pobres, defesa das populações atingidas pelas invasões e ação missionária. Para ele, o ministério eclesial não é domínio, mas serviço. O pastor deve conhecer as feridas do povo, adaptar a palavra às situações concretas e cuidar para que a autoridade seja expressão da caridade.
A história desses Padres demonstra que a misericórdia não é mera sensibilidade. Ela exige coragem para denunciar estruturas injustas, generosidade para partilhar e responsabilidade para organizar o cuidado. O amor de Deus torna-se historicamente visível quando a Igreja se inclina sobre os pobres e reconhece neles a presença do próprio Cristo.
A cruz, revelação suprema da misericórdia
A misericórdia alcança sua manifestação decisiva no mistério pascal. Na cruz, Deus não observa o sofrimento humano a distância. Em Jesus, assume a violência, o abandono, a humilhação e a morte. Cristo não responde ao ódio com novo ódio; vence o mal por meio da entrega de si mesmo.
A cruz revela simultaneamente a gravidade do pecado e a grandeza do amor. O pecado é tão destrutivo que conduz o Justo à morte; o amor é tão poderoso que transforma o instrumento de morte em árvore da vida. A misericórdia não ignora o mal, mas entra em seu território para vencê-lo a partir de dentro.
O lado aberto de Cristo, do qual saem sangue e água, torna-se sinal da fonte inesgotável da graça (Jo 19,34). O sangue manifesta a vida entregue; a água recorda a purificação, o Batismo e o dom do Espírito. Daquele que foi ferido brota cura para a humanidade.
A ressurreição confirma que a misericórdia é mais forte que a morte. O Cristo pascal apresenta-se aos discípulos que o haviam abandonado e sua primeira palavra é de paz (Jo 20,19-23). Ele mostra as feridas, não para acusar, mas para revelar que o amor venceu. Em seguida, comunica o Espírito Santo e confia à Igreja o ministério do perdão.
A misericórdia cristã é, portanto, pascal. Não consiste apenas em consolar a pessoa dentro de sua antiga condição, mas em fazê-la passar da morte para a vida, do medo para a missão e da culpa para a reconciliação.
A teologia da misericórdia no Missal Romano
O Missal Romano não apenas fala sobre a misericórdia: ele faz a Igreja rezar e celebrar dentro dela. A Missa votiva “A misericórdia de Deus” apresenta uma síntese profundamente trinitária e pascal.
A oração coleta pede que o povo compreenda melhor “o amor que o criou, o sangue que o redimiu e o Espírito que o regenerou”. A misericórdia aparece relacionada às três Pessoas divinas: o amor criador do Pai, o sangue redentor do Filho e a ação regeneradora do Espírito Santo (MR, Missa votiva “A misericórdia de Deus”).
Essa formulação mostra que a misericórdia não começa apenas depois do pecado. A própria criação é fruto do amor. Existimos porque Deus nos quis e nos chamou à vida. Quando o pecado feriu essa vocação, o Filho entregou seu sangue para nos redimir. O Espírito continua agindo na Igreja para renovar interiormente aqueles que foram alcançados por Cristo.
Na apresentação das oferendas, a Igreja pede que os dons sejam transformados no sacramento da redenção, memorial da morte e ressurreição do Senhor. A Eucaristia torna sacramentalmente presente o amor que se entrega. A assembleia não recorda uma misericórdia ausente, mas entra em comunhão com Cristo vivo, fonte da misericórdia.
As antífonas da comunhão recordam que o amor do Senhor permanece para sempre e contemplam o lado aberto de Cristo (Sl 103[102],17; Jo 19,34). A liturgia une eternidade e história: o amor eterno de Deus torna-se visível no corpo crucificado de Jesus.
Na Missa pelo perdão dos pecados, a Igreja proclama que Deus tem compaixão de todos e não rejeita nada do que criou. Pede simultaneamente perdão e paz, mostrando que a misericórdia não apenas apaga a culpa, mas restaura a comunhão interior, eclesial e fraterna. A oração sobre as oferendas chama a Eucaristia de sacrifício que nos reconcilia e pede que Deus oriente os corações vacilantes.
O ato penitencial da Missa também apresenta Cristo como aquele que salva os corações arrependidos, chama os pecadores, intercede junto ao Pai, perdoa Pedro, promete o paraíso ao ladrão arrependido e acolhe todo aquele que confia em sua misericórdia. Antes de ouvir a Palavra e aproximar-se do altar, a comunidade reconhece que vive da compaixão divina.
A liturgia impede que a misericórdia seja reduzida a um conceito. Ela transforma a misericórdia em experiência: a Igreja a confessa, suplica, recebe e celebra. Depois, é enviada para testemunhá-la no mundo.
A misericórdia não elimina a conversão
A misericórdia de Deus é gratuita, mas não é estéril. Ela desperta arrependimento, mudança de vida e compromisso com o bem. Jesus não condena a mulher acusada de adultério, mas também lhe diz para não tornar a pecar (Jo 8,11). A acolhida abre espaço para a conversão.
A conversão não deve ser compreendida como pagamento pelo perdão. Deus não ama porque a pessoa conseguiu mudar; a pessoa consegue mudar porque foi amada e alcançada pela graça. O arrependimento verdadeiro nasce quando o pecador percebe não apenas que violou uma norma, mas que feriu uma relação de amor.
A misericórdia também não exige que vítimas de violência permaneçam expostas ao agressor. Perdoar não é negar a gravidade do mal, impedir a justiça ou eliminar limites necessários. A reconciliação plena requer verdade, responsabilidade, arrependimento e reparação. A misericórdia liberta do desejo de vingança, mas não transforma a injustiça em algo aceitável.
Deus deseja restaurar tanto o ofendido quanto o ofensor. Ao ofendido, oferece cura, liberdade interior e proteção. Ao ofensor, oferece a possibilidade de reconhecer o mal, reparar os danos e iniciar uma vida nova. A verdade sem misericórdia pode esmagar; uma falsa misericórdia sem verdade pode perpetuar o mal. Em Cristo, verdade e amor caminham juntos.
Tornar-se misericordioso
Aquele que experimenta a misericórdia de Deus é chamado a tornar-se sinal dela. “Felizes os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia” (Mt 5,7). A bem-aventurança não estabelece uma negociação comercial com Deus. Revela que o coração verdadeiramente alcançado pela misericórdia começa a reproduzir aquilo que recebeu.
Ser misericordioso significa aprender a ver. O sacerdote e o levita da parábola viram o homem ferido, mas não permitiram que a visão se transformasse em proximidade. O samaritano viu com o coração e deixou-se interromper. A misericórdia começa quando o sofrimento do outro deixa de ser uma paisagem distante e se torna apelo pessoal.
Significa também aproximar-se. É possível ter sentimentos de compaixão sem assumir nenhuma responsabilidade concreta. O samaritano, porém, toca as feridas, oferece seus recursos, reorganiza a viagem e compromete-se com a continuidade do cuidado. A misericórdia possui mãos, tempo, recursos e perseverança.
Ser misericordioso implica ainda perdoar. Quem vive do perdão de Deus não pode alimentar indefinidamente o desejo de destruir o irmão. O perdão pode exigir tempo, oração e um longo caminho de cura, mas começa com a decisão de não permitir que o mal recebido determine todas as escolhas futuras.
Por fim, a misericórdia exige trabalhar por uma sociedade mais justa. Dar alimento ao faminto, acolher o estrangeiro, visitar o enfermo, defender o pobre e promover condições dignas de vida não são atividades secundárias à fé. São lugares nos quais o amor invisível de Deus se torna visível.
Comentário espiritual
A misericórdia começa com o olhar de Deus. Antes de pronunciarmos qualquer palavra, ele vê nossa verdade inteira. Vê aquilo que mostramos e aquilo que escondemos, nossas quedas e também as possibilidades que ainda não conseguimos perceber. Seu olhar não é ingênuo, mas também não é condenatório. É o olhar que fez Pedro chorar e depois o tornou capaz de amar de maneira mais humilde.
Há pessoas que acreditam na existência de Deus, mas têm dificuldade de acreditar que são pessoalmente amadas por ele. Carregam a imagem de um Deus que observa para punir, contabiliza erros e se aproxima apenas para exigir. O Evangelho apresenta outro rosto: o Pai que corre ao encontro do filho, o pastor que procura a ovelha, Jesus que toca o leproso e o Ressuscitado que entra numa sala fechada para oferecer a paz.
Deixar-se alcançar pela misericórdia exige abandonar duas ilusões. A primeira é a de que não precisamos de perdão. A autossuficiência fecha o coração, impede o reconhecimento das feridas e transforma a religião em julgamento dos outros. A segunda é a de que não podemos ser perdoados. O desespero também é uma forma de permanecer centrado em si mesmo, como se nosso pecado fosse maior que o amor de Deus.
A humildade cristã situa-se entre essas duas ilusões. Ela reconhece: pequei, necessito de cura e não posso salvar-me sozinho; mas também confessa: Deus é maior que meu pecado, sua graça pode restaurar-me e sua misericórdia abre um futuro.
A experiência da misericórdia muda a maneira de rezar. A pessoa deixa de aproximar-se de Deus como alguém que precisa apresentar méritos e passa a apresentar-lhe as próprias feridas. A antiga oração atribuída a Santo Ambrósio, conservada no Missal Romano, exprime essa confiança: o pecador recorre a Cristo como fonte de misericórdia, mostra-lhe suas chagas e procura nele não a destruição, mas a cura.
Muda também a maneira de olhar a Igreja. A comunidade cristã não é uma reunião dos que nunca caíram, mas o povo daqueles que foram alcançados pela graça e continuam caminhando. Isso não autoriza mediocridade nem encobrimento do pecado. Pelo contrário, cria o ambiente no qual a verdade pode ser reconhecida sem que a pessoa seja abandonada.
Uma Igreja misericordiosa não deixa de anunciar a conversão, mas anuncia-a com lágrimas, paciência e esperança. Não reduz a pessoa ao seu pior ato. Não usa a verdade como pedra. Não fecha as portas para quem deseja retornar. Ao mesmo tempo, protege os feridos, corrige os abusos e procura reparar aquilo que foi destruído.
Conclusão
A misericórdia é o amor de Deus enquanto se aproxima da fragilidade humana para curá-la e salvá-la. É o amor que cria, procura, perdoa, corrige, levanta e envia. No Antigo Testamento, manifesta-se na fidelidade de Deus à Aliança; em Jesus Cristo, recebe um rosto humano; na cruz, torna-se entrega total; na ressurreição, revela-se mais forte que a morte; no Espírito Santo, regenera os corações; na Igreja, torna-se Palavra, sacramento, reconciliação e serviço.
Os Padres da Igreja compreenderam que a misericórdia não pode ser separada da graça. É Deus quem toma a iniciativa, toca o coração e torna possível a resposta. A história eclesial mostra que essa misericórdia precisa vencer o rigorismo, acolher os pecadores arrependidos, defender os pobres e transformar o exercício da autoridade em serviço.
O Missal Romano oferece uma síntese luminosa: fomos criados pelo amor do Pai, redimidos pelo sangue do Filho e regenerados pelo Espírito. Celebrar a misericórdia significa reconhecer que toda a existência cristã está envolvida por esse amor.
Diante de nossas feridas, Deus não se afasta. Diante de nossas quedas, não deixa de chamar. Diante da morte, abre a porta da ressurreição. Sua misericórdia não afirma que nada aconteceu; proclama que, pela graça, algo novo ainda pode acontecer.
Quem acolhe esse amor aprende a pronunciar com a própria vida a oração da Igreja: “Eternamente cantarei as misericórdias do Senhor” (Sl 89[88],2).
Siglas e referências
AGr — Santo Agostinho, A Graça I: O espírito e a letra; A natureza e a graça; A graça de Cristo e o pecado original.
DM — São João Paulo II, Encíclica Dives in misericordia.
MV — Papa Francisco, Bula Misericordiae Vultus.
CIC — Catecismo da Igreja Católica.
MR — Missal Romano, terceira edição para o Brasil.
NCBSJ — Novo Comentário Bíblico São Jerônimo: Novo Testamento e artigos sistemáticos.
PTC — Antônio Sagrado Bogaz, Patrística: caminhos da tradição cristã.


